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Livre da Heroína

Talvez você esteja pensando: “Só mais um pouquinho de força de vontade e eu vou ficar bem.” Uma história pessoal de como força de vontade não funciona, e o que realmente funciona…

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(por Ted N.)

A vida de um viciado em drogas é uma montagem de imagens paradas. Como na noite em que eu estava dirigindo e notei aquelas desconcertantes luzes azuis e vermelhas piscando no meu retrovisor. Conforme fui diminuindo a velocidade que era de 150 km/h até parar, percebi que estava vestindo um roupão e calças de pijama verde xadrez. Eu rapidamente tentei contabilizar quantos drinques tinha tomado nas últimas horas, e me lembrei da meia grama de heroína fazendo volume no meu bolso, e ainda de uma variedade de itens impronunciáveis espalhados pelo carro.

O camarada de uniforme azul bateu com firmeza na janela do carro. Escondi o resto do meu cigarro numa lata de refrigerante e baixei o vidro. Não contei a ele nenhum dos meus segredos. Ele não fez nenhum comentário sobre o modo como eu estava vestido, sobre o horário, ou sobre minhas mãos trêmulas. Ele apenas me alertou sobre o perigo de veados que costumam atravessar disparados aquele trecho da estrada. Ele foi misericordioso com meu excesso de velocidade e depois disso retornou para o seu veículo sem me dar uma multa. Eu devia estar parecendo mais cansado do que bêbado.

Tinha chegado a um ponto em que podia consumir uma quantidade generosa de bebida alcoólica sem parecer bêbado. Na verdade, eu me sentia mais perto do normal quando bebia um pouquinho. Estava calmo quando o policial se foi, e um tanto desapontado quando prossegui dirigindo.

Como é ter um vício? Isolamento.

Eu ao mesmo tempo preferia e desprezava a minha própria companhia; tinha medo de mim mesmo e do que poderia fazer se deixado sozinho por muito tempo. Em mais de uma ocasião, eu me peguei no meio da cozinha com a gaveta de talheres meio aberta e com uma faca afiada na minha mão. A sua ponta pressionava o meu pescoço numa tentativa de sentir algo, qualquer coisa; querendo morrer, mas na verdade apenas querendo viver. Acordava na manhã seguinte no chão da cozinha como um homem adulto que chorou até cair no sono, sentindo-me quebrado, um covarde, cativo e absolutamente sozinho.

Por um tempo tentei festinhas, sempre me sentia otimista até o momento em que entrava numa sala cheia de gente, e então via meia dúzia de rostos que eu preferia não encontrar. No meu desconforto social, o esforço que eu tinha que fazer em conversas forçadas era exaustivo. Ficava por uns dez minutos tentando parecer preocupado, e então fingia sair para fumar um cigarro, e escapava para o meu carro e ia embora. Nos primeiros anos fazendo isso, meus amigos ligavam perguntado para onde eu fui, até que aos poucos eles pararam de ligar.

Parece engraçado nos filmes quando as pessoas acordam numa cama estranha ou num sofá desconhecido sem terem ideia de como chegaram lá. Não me lembro de ver humor em acordar no assento do motorista do meu carro estacionado na frente do edifício de apartamentos errado. Nunca me peguei com um sorriso no rosto enquanto tentava me levantar de um chão revestido de um carpete manchado e tentava achar meu caminho de volta para casa.

Eu preferia ficar no meu apartamento, apenas saía para comprar cigarros, bebida ou ir até a esquina para comprar drogas. Era mais seguro assim. Não precisava ficar imaginando se matei alguém. Então, ao poucos, eu me resignei a nunca sair. Trancava as portas e fechava as persianas por dias sem fim. Fique certo de uma coisa, isolamento total é receita para insanidade total.

O que está na raiz do vício?

Falar com um viciado em drogas ou um alcoólatra (na minha opinião não há distinção) é praticamente como falar com uma criança. Ele ou ela está presente fisicamente, mas há uma barreira mental de maturidade. Eu adorava fazer monólogos longos e emocionados para qualquer pessoa sobre as misérias da vida e a crueldade de Deus. A minha audiência diminuiu conforme meus discursos foram ficando mais longos e melancólicos.

As noites eram meu lugar de conforto, meu intervalo para beber vorazmente e engolir, fungar, fumar ou injetar qualquer coisa para dentro do meu corpo que pudesse oferecer algum alívio de... não sei nem do quê. A bebida e as drogas uma vez serviram um propósito. Trouxeram liberdade, clareza, paz de espírito e leveza. Mas quando foi que a solução se tornou um problema? Meus meios de escape ironicamente se tornaram a minha prisão.

Os efeitos da heroína

Eu clamava a Deus, chorando e gritando de raiva para que ele me resgatasse. Todas as noites eu temia as manhãs, estava certo de que não aguentaria viver outro dia. Tudo me amedrontava, o toque do telefone, a batida na porta, a escola, o trabalho, as pessoas que eu encontrava, e mais do que tudo — eu mesmo. Nunca sabia o que fazer a seguir. Eu passava a manteiga no pão e resistia à urgência de cortar minha própria garganta. Passava dirigindo sobre uma ponte e sentia as minhas mãos querendo virar o volante e lançar o carro em queda livre. Enchia o primeiro copo de bebida do dia antes mesmo de entrar no meu carro, sabendo que teria outros pela frente.

Então eu queria morrer, mas sabia que funeral triste seria o meu. Ninguém ficaria surpreso. As pessoas provavelmente falariam sobre o meu potencial ao invés das minhas conquistas. Meus pais se culpariam e viveriam em vergonha e arrependimento, e meus irmãos perderiam seus sorrisos e toda sua inocência. A memória de mim seria um peso para eles.

Era hora de encontrar uma solução.

Entrando em tratamento

Lembro de estar em tratamento, considerando os próximos passos de um caminho indefinido, imaginando o que pensar sobre os últimos dez anos da minha vida. Foram eles totalmente perdidos? O que eu devo fazer com todo esses danos, e como posso seguir em frente com um passado desse ainda tão perto?

E quanto a Deus? Onde estava ele quando eu me sentia tão abandonado e sozinho? Será que ele estava lá todas aquelas vezes que dirigi para casa embriagado e ridiculamente entupido de drogas? Ele estava lá quando eu acordava em algum lugar desconhecido? Talvez ele estivesse presente quando eu entrei numa banheira de hidromassagem às quatro da manhã e apaguei algum tempo depois de todos irem embora, e acordei mais tarde com os cabelos molhados mas nem sinal de quem me resgatou de lá.

Se eu pudesse ter percebido essas intervenções lá atrás, teria me perguntando... por quê? O que em mim era digno de ser resgatado? Eu não estava contribuindo com nada para o mundo, então por que Deus se deu o trabalho?

No tratamento, força de vontade não é o suficiente

Depois de dois meses de tratamento e sem progresso, estava exausto como nunca antes estive. Mesmo sem ter bebido ou usado drogas por 60 dias, eu ainda era controlado pelas substâncias. Eu não tinha referências para funcionar como as outras pessoas. Pelo menos quando estava bebendo, eu pensava, havia um meio de alívio de todas as expectativas da vida. Agora, eu estava vulnerável. Não tinha mais a minha solução dentro de um copo diante de mim ou organizado em linhas brancas sobre a cômoda.

Por tantas vezes durante os últimos dez anos eu caí de joelhos desesperado, gritando em dores excruciantes: “Deus, AJUDE-ME!” Eu exigia ser resgatado, demandava que Deus consertasse tudo isso. Mas nunca tinha entregado a minha vontade a Deus. Então, finalmente, uma noite, sozinho no meu quarto, eu decidi ser honesto e falei diretamente com Deus. Contei a ele do meu sincero e desesperado desejo de mudar, de largar o meu vício por ele, e que eu estava realmente disposto a tomar uma atitude. Naquela noite eu dormi um sono profundo. Foi a primeira vez que provei o gosto da liberdade.

A diferença entre a oração daquela noite e todas as outras é uma palavra crucial e poderosa — fé. Eu acreditava até certo ponto, mesmo nos piores momentos do meu vício, que Deus me livraria daquela carga. Entretanto, eu havia insistido em fazer as coisas do meu jeito. Nunca antes havia eu entregado o meu problema a Deus, ou pedido por direção e sabedoria sobre qual deveria ser o meu papel nesse processo. Foi a primeira vez que tive a certeza de que: “Tudo bem então, Deus está cuidando disso porque a história mostra que eu não consigo.”

As pessoas acham que o vício pode ser vencido com força de vontade. Eu sabia que meu vício era masoquismo, mas imaginar a vida sem beber e sem usar drogas era impossível. Era a minha derrocada, mas também minha única amiga, meu único meio de viver. Força de vontade em meio a um dilema desse era impossível. Se eu não tenho clareza sobre o meu grande dilema, então de que forma poderia conquistar sua existência? Graças a Deus por Deus.

Existe algo mais poderoso do que um vício?

O vício é uma força astuta, implacável e aparentemente imutável; mas coloca o vício diante de Deus para uma batalha e o vício não tem chance. Embora a força de vontade e a resistência humana sejam inadequadas na minha batalha contra o vício, o poder de Deus não tem limites. Não tenho dúvidas de que o vício é uma das armas favoritas de Satanás; uma vez que essa doença parece tão estranhamente semelhante a, imagino, ser possuído. A recuperação de um viciado é verdadeiramente uma batalha espiritual.

O meu programa de recuperação é simples: buscar a Deus, estando com vontade ou não.

Tento seguir aquilo que Paulo escreveu (na bíblia) aos seus amigos, que também eram seguidores de Jesus: “...tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas. Tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim, ponham-no em prática. E o Deus da paz estará com vocês.”1 Eu gostava da ideia de pensar nessas coisas, em vez de pensar em ingerir pó pelo nariz.

O que eu ganhei com o meu vício

O meu passado, por mais sombrio que tenha sido, tornou-se um recurso verdadeiramente valioso. Agora eu sou responsável por ajudar outros a encontrarem e manterem sua recuperação, assim como eu. São as nossas experiências similares que formam nossa conexão. Toda semana alguém que é novo na recuperação, incerto de que há uma saída, irá me contar uma estória sobre o seu passado recente que os assombrou e os levou a beber mais um copo ou a encher mais uma seringa. Eles me contam sobre como se sentem envergonhados com hesitação e olhos que refletem o medo de serem julgados. Quando terminam, baixam suas cabeças, não conseguem olhar olho no olho. Eu sorrio e digo com toda honestidade: “É, eu fiz isso também.” De repente, toda aquela carga de vergonha e a sensação de ser o único se dispersa. Então conto a eles como as coisas são diferentes para mim hoje. Ver um milagre acontecendo em você ou por você é uma coisa, mas ter voluntariamente um papel no milagre na vida de alguém — é um privilégio sublime.

Como é que um criminoso, um viciado e um bêbado, um perdedor em todos os aspectos, torna-se um agente de Deus? Como é que eu, que apenas alguns anos atrás tinha certeza de que esse mundo seria melhor sem mim, agora trabalha para Deus? Na verdade não tenho uma resposta porque Deus trabalha de formas que eu não entendo. Deus, comicamente, parece usar as pessoas menos prováveis como seus acessórios. Se esse é o caso, não passo muito tempo questionando isso.

Seis meses depois que me entreguei a Deus e comecei a trabalhar duro na minha sobriedade, eu me matriculei novamente na faculdade e me formei pouco tempo depois com honras e com uma experiência universitária com a qual nunca sonhei. Mais de três anos já se passaram desde aquela noite em que caí de joelhos e desde então nunca mais perdi a esperança. A minha vida não é “Ok”. É extraordinária. Isso não quer dizer que eu tenha milhões de dólares, fama, que todos achem que eu sou o cara, e que não há nada nesse mundo que eu não possa fazer. O que eu quero dizer é que cada manhã eu faço o meu melhor para entregar a minha vontade a Deus e me abrir ao seu querer, pedindo para que ele trabalhe por meio de mim, e essa é uma oração que ele nunca deixa de ouvir. Quando estou alerta para as oportunidades, posso vê-las em cada esquina.

Eu sei o seguinte a respeito de Deus... Ele pode pegar as piores situações e reinventá-las, transformando-as em algo maravilhoso.

 Tenho uma pergunta…
 Como começar um relacionamento com Deus

(1) Filipenses 4.8,9


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